investigación

Recebido: 31 de março de 2025 • Enviado para modificações: 18 de outubro de 2025 • Aceito: 19 de março de 2026

Vidal, S. L., Curi, H. T. e Ferretti, E. C. (2026). Aprendizagem baseada em projetos na identificação de barreiras à participação social de pessoas com deficiência visual e auditiva. Revista Ocupación Humana, 26(2), 118-137. https://doi.org/10.25214/25907816.1978

Aprendizagem baseada em projetos na identificação de barreiras à participação social de pessoas com deficiência visual e auditiva1

Aprendizaje basado en proyectos para la identificación de barreras a la participación social de personas con discapacidad visual y auditiva

Project-based learning in identifying barriers to the social participation of people with visual and hearing disabilities

Shessa Leal Vidal 2

Haidar Tafner Curi 3

Eliana Chaves Ferretti 4

Vidal, S. L., Curi, H. T. e Ferretti, E. C.

1. Artigo derivado de trabalho de conclusão de curso intitulado “Identificação de barreiras à participação social das pessoas com deficiência auditiva e deficiência visual” (Vidal, 2022), apresentado pela primeira autora ao Curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP, campus Baixada Santista, como requisito à obtenção do grau de Bacharel em Terapia Ocupacional, com orientação da terceira autora.

2. Terapeuta ocupacional. Instituto de Medicina Física e Reabilitação, Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. São Paulo, São Paulo, Brasil.

shessaleal@gmail.com

https://orcid.org/0000-0003-1517-7856

3. Terapeuta ocupacional. Mestre em Ciências. Docente, Universidade Federal de Rondonópolis, Campus Baixada Santista. Santos, São Paulo, Brasil.

curi.haidar@unifesp.br

https://orcid.org/0000-0003-2660-2870

4. Terapeuta ocupacional. Mestre e Doutora em Rehabilitation Science and Technology. Docente, Universidade Federal de São Paulo, Campus Baixada Santista. Santos, São Paulo, Brasil.

chavesferretti@gmail.com

https://orcid.org/0000-0002-7605-828X

Resumo

As barreiras e os facilitadores da participação social derivam de fatores ambientais que limitam autonomia e inclusão das pessoas com deficiência. Contudo, são escassos os estudos que exploram a relação entre a aprendizagem baseada em projetos e a identificação desses fatores, bem como o desenvolvimento de propostas de tecnologia assistiva. O objetivo deste estudo foi identificar barreiras à participação social de pessoas com deficiência visual e auditiva por meio da aprendizagem baseada em projetos, além de propor intervenções em tecnologia assistiva, sob a perspectiva da Terapia Ocupacional. Trata-se de dois estudos de caso qualitativos, realizados em Santos (São Paulo, Brasil), no contexto de uma disciplina optativa. A coleta de dados foi realizada por entrevistas narrativas conduzidas online por uma estudante com dois narradores, com apoio de intérprete da Língua Brasileira de Sinais (Libras), quando necessário. Os dados foram analisados por análise narrativa e categorizados conforme a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde. Identificaram-se barreiras físicas (calçadas danificadas, ausência de semáforos sonoros, falta de piso tátil e rampas) e atitudinais (baixa compreensão de Libras por policiais). Foram propostas intervenções em acessibilidade urbana e capacitação em Libras. A abordagem possibilitou identificar barreiras e formular estratégias voltadas à promoção da participação social.

Palavras-chave: participação social, pessoa com deficiência, Terapia Ocupacional, tecnologia assistiva, Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde

Resumen

Las barreras y facilitadores de la participación social se derivan de factores ambientales que limitan la autonomía y la inclusión de las personas con discapacidad. Son escasos los estudios que exploran la relación entre el aprendizaje basado en proyectos, la identificación de esos factores y el desarrollo de propuestas de tecnología de asistencia. El estudio buscó identificar barreras a la participación social de personas con discapacidad visual y auditiva, mediante el aprendizaje basado en proyectos, y proponer intervenciones en tecnología de asistencia desde Terapia Ocupacional. Se trata de dos estudios de caso cualitativos realizados en Santos (São Paulo, Brasil), en una asignatura optativa. La recolección de datos se realizó mediante entrevistas narrativas en línea, conducidas por una estudiante, a dos narradores, con interpretación en lengua brasileña de señas (Libras), cuando fue necesario. Se realizó análisis narrativo y categorización conforme a la Clasificación Internacional del Funcionamiento, de la Discapacidad y de la Salud. Se identificaron barreras físicas (aceras deterioradas, ausencia de semáforos sonoros, falta de pavimento táctil y rampas) y actitudinales (baja comprensión de Libras por policías). Se propusieron intervenciones en accesibilidad urbana y capacitación en Libras. El enfoque permitió identificar barreras y formular estrategias orientadas a promover la participación social.

Palabras clave: participación social, persona con discapacidad, Terapia Ocupacional, dispositivos de autoayuda, Clasificación Internacional del Funcionamiento, de la Discapacidad y de la Salud

Abstract

Barriers and facilitators of social participation often derive from environmental factors that limit the autonomy and inclusion of people with disabilities. Few studies have examined the relationship between project-based learning, the identification of these factors, and the development of assistive technology proposals. This study sought to identify barriers to the social participation of people with visual and hearing disabilities through project-based learning, and to propose assistive technology interventions from an Occupational Therapy perspective. Two qualitative case studies were conducted in Santos (São Paulo, Brazil), within an elective course. Data were collected through online narrative interviews conducted by a student with two narrators, with interpretation into Brazilian Sign Language (Libras) when needed. Narrative analysis was performed, and findings were categorized according to the International Classification of Functioning, Disability and Health. Physical barriers were identified (deteriorated sidewalks, absence of audible pedestrian signals, and lack of tactile paving and ramps), as were attitudinal barriers (limited comprehension of Libras among police officers) were identified. Interventions in urban accessibility and Libras training were proposed. This approach made it possible to identify barriers and to formulate strategies aimed at promoting social participation.

Keywords: social participation, people with disabilities, Occupational Therapy, self-help devices, International Classification of Functioning, Disability and Health

Introdução

No Brasil, no ano de 2019, 17,3 milhões de pessoas repostaram algum tipo de deficiência, sendo as deficiências visual e auditiva as mais comuns (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [IBGE], 2020). A deficiência visual inclui cegueira total ou baixa visão em ambos os olhos, bem como a perda de visão em um olho com visão reduzida ou normal no outro, afetando aproximadamente 6,9 milhões de brasileiros (IBGE, 2020). A deficiência auditiva, caracterizada pela perda auditiva superior a 35 decibéis (dB), afeta globalmente mais de 400 milhões de pessoas (Organização Mundial de Saúde [OMS], 2020a). Em 2019, no Brasil, 2,3 milhões de indivíduos (1,1% da população) apresentavam comprometimento parcial ou total da audição, sendo essa condição mais prevalente entre idosos (IBGE, 2020).

De acordo com a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (conhecida como CIF), a participação social refere-se ao envolvimento em situações da vida real e é influenciada por fatores ambientais e pessoais (OMS, 2020b). Esse processo pode ser facilitado ou restringido por barreiras físicas, sociais e atitudinais, como a ausência de infraestrutura acessível, o estigma, dificuldades na comunicação e o acesso limitado a tecnologias assistivas e serviços especializados (Chang et al., 2018; Condessa et al., 2020; Jaiswal et al., 2019).

Na Terapia Ocupacional, os conceitos de atividade e ocupação possuem diferentes interpretações, refletindo a pluralidade teórica da profissão. Segundo a American Occupational Therapy Association (AOTA, 2020), ocupações são as ações cotidianas que dão sentido e propósito à vida das pessoas, abrangendo áreas como autocuidado, trabalho, lazer e participação social. Já as atividades correspondem às ações realizadas para desenvolver habilidades e padrões de desempenho necessários ao envolvimento ocupacional. Assim, a análise de barreiras e facilitadores deve considerar ambas as dimensões, atividade e ocupação, por serem centrais para o desempenho, o engajamento e as intervenções em Terapia Ocupacional.

As principais barreiras encontradas por pessoas com deficiência visual na vida cotidiana incluem limitações para leitura e navegação na internet, necessidade de assistência, falta de acessibilidade, dificuldades com transporte e restrições financeiras (Blaga et al., 2025; Pérez-Garín et al., 2021; Remillard, et al. 2024). Já para pessoas com deficiência auditiva, as principais barreiras encontradas incluem dificuldades na localização e clareza do som, fadiga física e mental, desafios na comunicação e interação social, isolamento, estigma social e impacto na confiança e na independência, indisponibilidade de intérpretes de língua de sinais em instituições de saúde e educação (Henderson et al., 2024; Lima et al., 2025).

Nesse contexto, a tecnologia assistiva desempenha papel fundamental na facilitação da participação social, ao reduzir barreiras que limitam a inclusão de pessoas com deficiência visual e auditiva (Nascimento et al., 2022; Rincón Martínez et al., 2014). Facilitadores são fatores ambientais que podem ser físicos, atitudinais ou sociais e que, quando presentes, melhoram o desempenho e a participação das pessoas em diferentes contextos (OMS, 2020b). Assim, produtos, serviços e estratégias de tecnologia assistiva podem atuar como facilitadores, promovendo maior autonomia, acessibilidade e engajamento social.

A tecnologia assistiva é definida como a aplicação de conhecimentos organizados e habilidades relacionadas a produtos assistivos, incluindo sistemas e serviços (OMS, 2016). No contexto da deficiência visual, a tecnologia assistiva abrange recursos como leitores de tela, lupas eletrônicas, óculos ampliadores, sistemas de comunicação tátil e aplicativos de software e móveis, incluindo identificadores de cores, leitores de código de barras, aplicativos de navegação e reconhecimento de objetos (Remillard et al., 2024). Para a deficiência auditiva, incluem-se aparelhos auditivos, implantes cocleares, legendagem automática e sistemas de comunicação alternativa (National Institutes of Health, 2023). O uso desses dispositivos de tecnologia assistiva desempenha papel fundamental na promoção da participação social, ao reduzir barreiras à inclusão de pessoas com deficiência visual e auditiva (Nascimento et al., 2022).

Dada a importância da tecnologia assistiva para a inclusão de pessoas com deficiência visual e auditiva, a unidade curricular eletiva Práticas da Terapia Ocupacional junto às Pessoas com Deficiência Visual e Auditiva, do curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Paulo, no Brasil, foi criada em 2020, de formato remoto devido à pandemia de Covid-19, essencialmente para este momento emergencial. Esta disciplina teve por objetivo aprofundar o conhecimento dos estudantes sobre intervenções terapêuticas ocupacionais voltadas a essa população. A disciplina, de caráter teórico-prático, propôs a discussão das dimensões do cuidado em diferentes contextos e ciclos de vida, articulando fundamentos da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) (OMS, 2020b) e das Normas da Organização das Nações Unidas (ONU) para Equiparação de Oportunidades para Pessoas com Deficiência (United Nations, 1993).

As atividades foram realizadas em formato remoto devido às restrições impostas pela pandemia de Covid-19, e envolveram estudos dirigidos, rodas de conversa e a elaboração de narrativas de si e do outro, a partir de entrevistas on-line com pessoas com deficiência sensorial residentes na cidade de Santos, estado de São Paulo, Brasil, e indicadas pela disciplina. A proposta incluiu ainda a criação de produtos assistivos ou materiais educativos desenvolvidos pelos estudantes e encaminhados aos participantes, fortalecendo o vínculo entre a formação acadêmica e as demandas reais de acessibilidade e inclusão social. Os participantes convidados eram usuários de serviços públicos e de iniciativas vinculadas à universidade, o que possibilitou a integração entre ensino, pesquisa e extensão, promovendo a reflexão ética e a construção de soluções contextualizadas e socialmente comprometidas.

A eletiva contemplou metodologias ativas de ensino, como a aprendizagem baseada em projetos, que promove um aprendizado ativo e significativo. A aprendizagem baseada em projetos favorece a conexão entre teoria e prática, incentivando o pensamento crítico, a criatividade e a resolução de problemas centrado na pessoa (Zhang & Ma, 2023). Por meio dessa abordagem, os estudantes interagiam com pessoas com deficiência visual e auditiva, coletando narrativas sobre barreiras à participação social e criando soluções assistivas para ampliar essa participação. Esse método possibilita compreender as demandas reais e propor intervenções em tecnologia assistiva alinhadas às necessidades identificadas. Dessa forma, a aprendizagem baseada em projetos pode promover resolução de problemas reais, em que os alunos são incentivados a desenvolver um olhar crítico e transformador sobre a inclusão e a acessibilidade (Zhang & Ma, 2023).

Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo principal descrever as barreiras à participação social de pessoas com deficiência visual e auditiva, por meio da aprendizagem baseada em projetos aplicada na unidade curricular eletiva. O objetivo secundário foi propor intervenções em tecnologia assistiva na perspectiva da Terapia Ocupacional, com base nos relatos dos participantes coletados por estudantes da eletiva.

Método

Delineamento do estudo

Estudos de casos de abordagem qualitativa, conduzido por meio da metodologia aprendizagem baseada em projetos (figura 1).

Contexto

O método de aprendizagem baseada em projetos foi implementado na unidade curricular eletiva Práticas da Terapia Ocupacional junto às Pessoas com Deficiência Visual e Auditiva, oferecida entre agosto e outubro de 2020 no curso de Terapia Ocupacional da Universidade Federal de São Paulo, localizada em Santos, estado de São Paulo, Brasil. A aprendizagem baseada em projetos estimula a criatividade e o desenvolvimento pessoal ao promover uma aprendizagem ativa e prática, cuja integração contribui para o aperfeiçoamento das competências cognitivas, sociais e profissionais dos estudantes (Aley et al., 2024).

A disciplina, com carga horária total de 60 horas, foi estruturada em atividades teóricas e práticas fundamentadas em metodologias ativas de ensino, articulando teoria, prática e reflexão crítica sobre o cuidado a pessoas com deficiência sensorial em diferentes contextos e ciclos de vida. O conteúdo abordou os fundamentos conceituais, culturais e clínicos relacionados à deficiência visual e auditiva, com base na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) (OMS, 2020b) e nas Normas da ONU para Equiparação de Oportunidades para Pessoas com Deficiência (United Nations, 1993). O foco esteve na identificação de barreiras e facilitadores à participação social, bem como no planejamento de intervenções terapêuticas ocupacionais que promovessem acessibilidade, autonomia e inclusão.

Devido à pandemia de Covid-19, o plano de ensino foi adaptado para o formato remoto, utilizando plataformas digitais (Google Meet). As atividades incluíram seminários temáticos, produção de narrativas e encontros virtuais com convidados, realizados em pequenos grupos para favorecer a interação e a escuta sensível. Todos os estudantes matriculados participaram das atividades, sendo organizados em grupos que conduziram entrevistas narrativas com pessoas com deficiência auditiva ou visual.

As entrevistas foram realizadas com o apoio de intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) agendadas pelos próprios estudantes, garantindo acessibilidade comunicacional e fidelidade das informações. Os narradores eram pessoas surdas vinculadas a um projeto de extensão coordenado por docente da Universidade Federal de São Paulo, voltado à inclusão e à acessibilidade comunicacional. As entrevistas ocorreram virtualmente, com a presença do estudante-entrevistador, do narrador e da intérprete de Libras.

A partir das narrativas, os grupos de estudantes identificaram necessidades de intervenção em Terapia Ocupacional e elaboraram planos de ação correspondentes, discutidos e validados com os próprios participantes, em um processo dialógico e participativo. Essa dinâmica assegurou o envolvimento ativo de todos os estudantes e narradores desde o planejamento até a devolutiva das ações propostas, reforçando o caráter formativo, ético e colaborativo da disciplina.

Neste estudo, são apresentados dois casos representativos oriundos dessas atividades: um referente a uma pessoa com deficiência visual e outro a uma pessoa com deficiência auditiva, selecionados por sua relevância para ilustrar a aplicação do método aprendizagem baseada em projetos e o desenvolvimento das práticas em tecnologia assistiva na formação em Terapia Ocupacional, cujos dados foram coletados por uma estudante, autora principal deste artigo.

Participantes

Participaram duas pessoas com deficiência como entrevistados/narradores: uma com deficiência visual (n = 1) e uma com deficiência auditiva (n = 1).

A seleção dos participantes foi realizada por amostragem intencional com critério, um método amplamente utilizado em pesquisas qualitativas para identificar indivíduos que possuem experiências diretamente relacionadas ao fenômeno investigado (Palinkas et al., 2015). O recrutamento da pessoa com deficiência visual ocorreu por meio de contato com instituições especializadas ao público no município de Santos/São Paulo, utilizando telefone e e-mail. Já as pessoas com deficiência auditiva, eram vinculadas ao projeto de extensão coordenado pela Profa. Eliana Chaves, a qual trabalha com inclusão e acessibilidade comunicacional.

Coleta de dados

As coletas de dados foram realizadas em duas etapas, entre agosto e outubro de 2021, durante o período da pandemia de Covid-19, com a presença da estudante-entrevistadora, do narrador e da intérprete de Libras.

O método de investigação narrativa foi escolhido por reconhecer o participante como protagonista de sua própria história, permitindo compreender suas experiências sob uma perspectiva subjetiva e contextual (Gomes & Lima, 2019).

1ª etapa – A coleta de dados foi conduzida em momentos separados das atividades regulares da disciplina, embora integrados ao cronograma da unidade curricular. Essa etapa ocorreu após os encontros virtuais teóricos e preparatórios, nos quais os estudantes discutiram os objetivos, a ética e os procedimentos de entrevista. As entrevistas foram conduzidas por uma estudante da disciplina (entrevistadora), principal autora deste artigo, com o objetivo de compreender a trajetória e as vivências dos participantes. Como a entrevista foi realizada no formato narrativo, não houve um roteiro prévio de perguntas. A partir da interação entre narrador, estudante e intérprete, foram levantadas questões sobre as ocupações e atividades cotidianas, bem como sobre as barreiras e facilitadores ambientais que influenciavam sua rotina. Com base nessas informações, foram identificadas demandas específicas de intervenção em Terapia Ocupacional e tecnologia assistiva, visando promover maior funcionalidade e qualidade de vida.

2ª etapa – Análise e devolutiva: as demandas levantadas foram discutidas entre os alunos da disciplina e a aluna entrevistadora em reuniões com os professores da disciplina, possibilitando uma análise coletiva das necessidades identificadas. A partir das narrativas, os estudantes elaboraram planos de ação e propostas de intervenção, que foram apresentados aos narradores como devolutiva e validação das sugestões. A proposta de intervenção em tecnologia assistiva para pessoas com deficiência visual e auditiva foi encaminhada ao órgão responsável, com vistas a uma eventual execução. Contudo, é importante destacar que a proposta não foi implementada na prática.

Os relatos foram transcritos e sistematizados em diários narrativos, seguindo os princípios da investigação narrativa (Gomes & Lima, 2019), de modo a valorizar as experiências e os significados atribuídos pelos participantes, reafirmando seu papel como protagonistas do processo.

Preparação e condução dos encontros virtuais

Na preparação prévia, a aluna entrevistadora e a professora realizaram o contato com os narradores com uma semana de antecedência, seguido pela definição da plataforma digital (Google Meet).

Para a pessoa com deficiência visual, o Google Meet foi escolhido por sua acessibilidade e compatibilidade com leitores de tela, possibilitando o uso autônomo de recursos de áudio e navegação. O participante acessou a sala virtual com o apoio do leitor de tela e conduziu toda a interação de forma independente, o que confirma a efetividade da plataforma para comunicação e participação remota de pessoas com cegueira, permitindo que cerca de 75% a 80% das atividades diárias sejam realizadas de modo autônomo (Senjam & Primo, 2022).

Para a pessoa com deficiência auditiva, também foi utilizada a plataforma Google Meet, por oferecer recursos que favorecem a comunicação e a interação social. O agendamento prévio com intérprete de Libras e uma reunião preparatória com esse profissional permitiram alinhar estratégias de comunicação e garantir a acessibilidade durante o encontro. Embora não tenha sido necessária a legendagem devido à presença do intérprete, a plataforma demonstrou boa usabilidade e acessibilidade para esse público (Zitelli & Mormer, 2021).

Na condução das entrevistas, a confirmação com ambos os narradores foi realizada um dia antes, e a sala virtual foi aberta dez minutos antes do início. A proposta da atividade foi apresentada, seguida da explicação e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Ressalta-se que, durante os encontros com o narrador surdo, o intérprete de Libras participou ativamente de toda a sessão auxiliando a aluna que conduziu a entrevista com o narrador, garantindo mediação linguística e compreensão mútua entre entrevistadora e narrador.

Após os encontros com ambos os narradores, foram realizadas quatro reuniões entre a aluna e os professores da disciplina para discutir as demandas levantadas e estruturar propostas de intervenção em tecnologia assistiva, com foco na promoção da participação social com autonomia, independência e funcionalidade em atividades cotidianas.

Análise de Dados

A análise dos dados foi conduzida com base na metodologia de análise de narrativas, realizada pela aluna autora principal deste estudo e pelas professoras responsáveis pela disciplina eletiva (Gomes & Lima, 2019), por meio de três etapas:

Compreensão do contexto: Identificação dos elementos centrais da experiência dos participantes.

Desvendamento dos aspectos estruturais: Organização das narrativas para destacar padrões e temáticas emergentes.

Síntese interpretativa: Os dados foram sintetizados e categorizados com base na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) (OMS, 2020b), permitindo uma abordagem estruturada da funcionalidade e participação dos participantes. A categorização seguiu os domínios de Funções e Estruturas do Corpo, Atividades e Participação, e Fatores Ambientais, proporcionando uma análise detalhada dos facilitadores e barreiras à participação social.

Considerações éticas

Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (CAAE 38693820.1.0000.5505).

Resultados

Caso 1

Fatores pessoais e condição de saúde: Z., 79 anos, residente em Santos, São Paulo, Brasil, apresentou perda da função visual no olho esquerdo aos 23 anos devido a uma congestão e desmaio na gestação, resultando na enucleação ocular e no uso de prótese. Aos 59 anos, após um derrame ocular e uma cirurgia de catarata no olho direito, houve comprometimento total da visão. Desde 2000, frequenta uma instituição especializada em deficiência visual, o que contribuiu para sua autonomia. Apesar da cegueira total, mantém independência em atividades cotidianas, como compras, consultas médicas e uso de transporte público, com uso de bengala longa dobrável.

Funções e estruturas do corpo: Z. apresenta comprometimento severo das funções visuais e das estruturas oculares (b210.4 – Funções da visão, deficiência completa).

Atividades e participação: Z. desloca-se de forma independente para realizar compras, consultas médicas e utilizar transporte público (d460 – Movimentar-se em diferentes locais; d470 – Utilização de transporte), embora encontre limitações para se locomover a locais mais distantes devido à falta de acessibilidade urbana. Mantém independência na aquisição de bens e serviços (d620 – Adquirir bens e serviços), participa de atividades em instituições voltadas à deficiência visual e pode enfrentar barreiras ambientais em atividades de lazer (d920 – Participação em lazer e recreação).

Fatores ambientais físicos: A ausência de infraestrutura acessível impacta sua mobilidade pessoal (e150 – produtos e tecnologia usados em projeto, arquitetura, e construção de edifícios para o uso público, barreira). A acessibilidade limitada no transporte público e a infraestrutura urbana inadequada, com falta de semáforos sonoros, piso tátil e calçadas seguras, representam desafios (e120 – Produtos e tecnologia para mobilidade e transporte pessoal em ambientes internos e externos, barreira).

Fatores ambientais sociais: O suporte de profissionais da reabilitação foi essencial para sua independência (e355 – Profissionais da saúde, facilitador).

Fatores ambientais de atitude: A falta de acessibilidade reflete atitudes que restringem a participação de pessoas com deficiência visual (e460 – atitudes sociais, barreiras).

Intervenções em tecnologia assistiva: Como proposta de intervenção, foi elaborada uma carta endereçada à Prefeitura de Santos, São Paulo, destacando a ausência de acessibilidade nas vias urbanas para pessoas com deficiência visual e os impactos negativos dessa barreira na autonomia e na qualidade de vida. O documento sugere a instalação de semáforos sonoros para auxiliar na travessia de vias, a implementação de piso tátil em calçadas próximas a serviços voltados a essa população, pontos de ônibus, táxis e estabelecimentos comerciais, além de melhorias na infraestrutura do entorno da residência da narradora.

Ressalta-se que a acessibilidade urbana deve ser garantida em toda a cidade, assegurando o direito de ir e vir e a plena participação social de todas as pessoas com deficiência, conforme previsto na legislação vigente (Associação Brasileira de Normas Técnicas [ABNT], 2020; Brasil, 2015; Santos, 2017). Esses direitos estão previstos na Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), que estabelece o dever do poder público de eliminar barreiras urbanísticas, arquitetônicas e comunicacionais, e de promover o acesso universal aos espaços públicos e à tecnologia assistiva como condição para o exercício da cidadania. No âmbito municipal da cidade de Santos, a Lei Complementar nº 980/2017 dispõe sobre a padronização e a manutenção dos passeios públicos, determinando que calçadas, rampas e travessias assegurem circulação contínua, segura e acessível a todos. Complementarmente, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) NBR 9050:2020 define parâmetros técnicos nacionais para o desenho universal de vias, pisos táteis, sinalização sonora e largura mínima de circulação, garantindo o deslocamento autônomo e seguro em ambientes urbanos (ABNT, 2020; Brasil, 2015; Santos, 2017). A figura 2 ilustra a categorização dos resultados do caso 1 no esquema da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF).

Caso 2

Fatores pessoais e condição de saúde: M., 30 anos, nascido e residente em Santos, São Paulo, possui deficiência auditiva congênita. Durante sua trajetória educacional, enfrentou desafios de adaptação, especialmente no ensino regular. Concluiu a graduação em Educação Física, mas encontrou dificuldades para se manter profissionalmente na área. Atualmente, trabalha no setor de marketing de uma construtora em Praia Grande, São Paulo, Brasil.

Funções e estruturas do corpo: M. apresenta comprometimento da função auditiva, afetando a percepção de sons e a comunicação verbal, sem outras alterações estruturais associadas (b230.4 – Funções auditivas, deficiência completa).

Atividades e participação: M. relatou desafios que impactam sua participação social e profissional, incluindo dificuldades na comunicação durante a pandemia de Covid -19 devido ao uso de máscaras, que dificultaram a leitura labial (d350 – Conversação). No ambiente profissional, enfrenta barreiras para inserção e ascensão na carreira, em razão da falta de acessibilidade comunicacional em reuniões e treinamentos (d360 – Utilizar dispositivos de comunicação; d850 – Trabalho remunerado). Além disso, tem receio de abordagens policiais violentas devido à falta de conhecimento sobre Libras por parte da Polícia Militar, o que pode comprometer sua segurança em interações com agentes de segurança pública (d920 – recreação e lazer).

Fatores ambientais físicos: a falta de adaptação em serviços essenciais gerou barreiras na comunicação com profissionais da saúde e estabelecimentos comerciais (e125 – Produtos e tecnologia para comunicação, barreira). No ambiente profissional, a ausência de recursos de acessibilidade, como intérpretes de Libras ou legendagem, limita sua participação plena (e135 – Produtos e tecnologia para trabalho, barreira).

Fatores ambientais sociais: a escassez de oportunidades de crescimento profissional reflete barreiras estruturais na inclusão de pessoas surdas no mercado de trabalho (e330 – Pessoas em posição de autoridade, barreira). A falta de capacitação da equipe policial sobre a comunicação com a comunidade surda pode gerar riscos em situações de abordagem (e575 – Serviços de segurança pública, barreira).

Fatores ambientais de atitude: a falta de conhecimento sobre a cultura surda por parte da sociedade impacta sua participação social e profissional (e460 – Atitudes da sociedade em geral, barreira).

Intervenções em tecnologia assistiva: com base no relato de M., foi estruturado um projeto de capacitação para agentes de segurança pública (polícia militar), focado na comunicação acessível para a população surda. O objetivo do curso tem o propósito de promover uma compreensão ampla da cultura surda, facilitando a comunicação e reduzindo riscos em abordagens policiais. O projeto incluiu a sensibilização sobre a cultura surda, abordando as diferenças entre o modelo biomédico e socioantropológico da surdez, a importância da Libras como primeira língua da comunidade surda e as barreiras enfrentadas em abordagens policiais. Além disso, foram descritas estratégias de comunicação eficientes, como sinais básicos em Libras para abordagens, métodos alternativos (gestos, escrita, aplicativos de tradução) e práticas de simulação. Ressalta-se que o narrador colaborou na proposta de capacitação à Polícia Municipal e, também, autorizou sua identificação. A Polícia Militar aprovou a documentação referente à proposta; contudo, sua implementação não ocorreu, pois o período coincidiu com a pandemia, o que inviabilizou a realização dos encontros presenciais previstos. A figura 3 ilustra a categorização dos resultados do caso 2 no esquema da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF).

Discussão

O relato da narradora com deficiência visual total evidenciou as dificuldades enfrentadas em seu deslocamento no bairro onde reside e no entorno da instituição para pessoas com deficiência visual, que frequenta regularmente. A ausência de infraestrutura urbana acessível compromete sua autonomia e segurança, destacando a necessidade de investimentos públicos na adaptação das vias urbanas, como instalação de semáforos sonoros, implementação de piso tátil e melhoria das condições das calçadas. As sugestões de melhoria seguiram as diretrizes da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) NBR 9050: Acessibilidade a edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos (ABNT, 2020), que estabelece padrões de acessibilidade para edificações e espaços urbanos, garantindo maior autonomia e segurança para diferentes grupos populacionais, incluindo pessoas com deficiência visual.

Achados apontam que barreiras arquitetônicas e espaços urbanos inadequados aumentam a desigualdade no acesso à saúde e à segurança; a autonomia e a participação social, afetando diretamente a qualidade de vida de pessoas com deficiência (Kapsalis et al., 2024). No Brasil, a Lei Brasileira de Inclusão (Lei nº 13.146/2015) (Brasil, 2015) e legislações municipais, como a Lei Complementar Nº 980 do município de Santos (Santos, 2017), determinam que vias públicas e calçadas devem ser acessíveis, garantindo rotas seguras para idosos e pessoas com deficiência. No entanto, observa-se uma lacuna entre o que é previsto nas normas e a realidade urbana vivida pela população com deficiência. Essa disparidade ressalta a importância de fiscalização e a implementação efetiva das políticas de acessibilidade, garantindo que adaptações arquitetônicas realmente promovam a inclusão.

Para o narrador com deficiência auditiva, um dos principais desafios relatados foi a falta de comunicação acessível com agentes de segurança pública, especialmente a Polícia Militar. A ausência de preparo dos policiais para interagir com a comunidade surda gera riscos de abordagens inadequadas, reforçando a necessidade de formação e capacitação em comunicação acessível.

A abordagem da deficiência auditiva requer uma compreensão ampla da diversidade de identidades surdas, uma vez que nem todas as pessoas surdas utilizam Libras como principal meio de comunicação (Yatim & Weininger, 2024). Fatores como grau e momento da perda auditiva, capacidade de fala e leitura labial, e o uso de produtos assistivos influenciam as estratégias comunicacionais adotadas por cada indivíduo (Viera et al., 2023). No caso do narrador deste estudo, a Libras é sua principal língua, destacando a importância de garantir sua presença em espaços de vida, especialmente no atendimento público.

A ausência de intérpretes de Libras nos serviços essenciais, como delegacias e unidades de saúde, amplia as barreiras comunicacionais. No estado de São Paulo, a PL Nº 9/2020 propõe a presença obrigatória de intérpretes de Libras em batalhões da Polícia Militar e delegacias, mas sua implementação ainda é incipiente (São Paulo, 2020). Isso também ocorre no contexto da saúde: estudos indicam que pessoas surdas enfrentam dificuldades para se comunicar com médicos, resultando em menor adesão ao tratamento, desinformação sobre diagnósticos e sentimento de frustração e insegurança durante atendimentos em unidades básicas de saúde e hospitais (Hickey et al. 2024; Leles & Capop, 2021).

Nesse sentido, sugere-se que a capacitação em comunicação acessível seja ampliada para diferentes profissionais do serviço público, incluindo policiais e profissionais de saúde. A aplicação efetiva da Lei nº 10.436/2002 e do Decreto nº 5.626/2005, que regulamenta a Libras como forma oficial de comunicação da comunidade surda, poderia reduzir barreiras e garantir um atendimento mais humanizado e inclusivo (Brasil, 2002; Brasil, 2005).

Os achados deste estudo reforçam que, apesar dos avanços legais e normativos na garantia dos direitos das pessoas com deficiência, barreiras ambientais, físicas e comunicativas continuam limitando sua participação plena na sociedade.O ambiente acessível é um elemento essencial para inclusão, mas as experiências relatadas pelos participantes evidenciam que a prática ainda está distante do que é estabelecido nas políticas públicas (Long & Guo, 2023).

É fundamental reconhecer que barreiras e facilitadores variam de acordo com a deficiência e o contexto em que estão inseridas. Uma adaptação arquitetônica projetada para pessoas com deficiência motora pode não beneficiar pessoas cegas ou surdas, e um recurso comunicacional pensado para a comunidade surda pode não ser útil para quem tem baixa visão. Assim, estratégias de acessibilidade devem considerar a diversidade das deficiências e suas especificidades, promovendo soluções flexíveis e abrangentes (Remillard et al., 2024)

É importante destacar que o método utilizado neste estudo para a categorização dos achados baseou-se na Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), reconhecida como uma ferramenta relevante para estruturar o raciocínio clínico e favorecer a prática centrada no cliente na Terapia Ocupacional. No Brasil, achados indicam que seu uso contribui para a organização da prática e para a elaboração de planos terapêuticos integrados, baseados em uma abordagem centrada na ocupação (Alves et al., 2019). A adoção de instrumentos como o ICF Categorical Profile e o ICF Assessment Sheet favorece a avaliação, a intervenção e o registro de resultados, além de fortalecer a comunicação interdisciplinar por meio de uma linguagem comum (Alves et al., 2019). Persistem, contudo, desafios quanto à aplicabilidade prática e à incorporação dos fatores pessoais no processo avaliativo.

Em nível internacional, a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) tem sido reconhecida como um modelo biopsicossocial que apoia o raciocínio clínico e a prática centrada no cliente. Pesquisas realizadas no Irã e na Europa demonstram seu potencial para promover abordagens mais holísticas e colaborativas, envolvendo o paciente na definição de metas e na avaliação de resultados (Mehraban et al., 2022; Pettersson et al., 2012). Entretanto, estudos apontam limitações conceituais na distinção entre atividade e participação e na captura da dimensão subjetiva das ocupações humanas (Pettersson et al., 2012). Em síntese, a CIF se consolida como um modelo estruturante e uma linguagem comum que favorece a integração entre profissionais e o cuidado centrado na pessoa, ainda que demande aprimoramentos conceituais e maior investimento em formação para ampliar sua aplicabilidade na Terapia Ocupacional.

Além disso, a aprendizagem baseada em projetos demonstrou ser um método capaz de identificar e analisar barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência visual e auditiva. Ao permitir que os estudantes experienciem diretamente com os participantes, tal cenário proporcionou um aprendizado mais ativo e significativo, incentivando a escuta ativa, a identificação de barreiras e a proposição de soluções em tecnologia assistiva na perspectiva da Terapia Ocupacional, baseadas nas necessidades reais das pessoas com deficiência.

Nossa experiência com alunos de Terapia Ocupacional na identificação de barreiras e na implementação de intervenções em tecnologia assistiva corrobora os achados de Aley et al. (2024). A aprendizagem baseada em projetos não apenas aproxima os alunos do conhecimento específico do curso, mas também fortalece estratégias para análise crítica e resolução de problemas. A construção de produtos concretos nos projetos de aprendizagem, baseada em projetos, aumenta o envolvimento dos alunos, ampliando o interesse pela área e a satisfação com a aprendizagem. Como resultado, os estudantes tornam-se mais confiantes para engajar-se no planejamento e intervenções em saúde. Embora a aprendizagem baseada em projetos estimule criatividade e desenvolvimento pessoal por meio de uma aprendizagem mais prática, sua integração nos currículos de cursos da área da saúde ainda é limitada (Aley et al., 2024).

No Brasil, a aprendizagem baseada em projetos tem sido aplicada de forma parcial e adaptada aos currículos de Terapia Ocupacional, revelando avanços pedagógicos, mas também limitações estruturais. As experiências da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, da Universidade Federal de Minas Gerais, da Universidade do Estado do Pará e da Universidade Federal de São Carlos indicam benefícios consistentes, como maior autonomia, pensamento crítico e aproximação entre teoria e prática. Ainda assim, fatores como o tempo necessário para o processo, a falta de infraestrutura adequada e a necessidade de formação docente específica permanecem como desafios. Na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e na Universidade Federal de Minas Gerais, o método favoreceu a aprendizagem ativa e o raciocínio clínico, mas foi adotado em disciplinas isoladas, restringindo a integração curricular (Coutinho et al., 2012; Magalhães et al., 2010). Na Universidade do Estado do Pará, observou-se melhora nas habilidades de reflexão e definição de objetivos terapêuticos (Pfeifer, 2000), enquanto na Universidade Federal de São Carlos, combinada à problematização, a aprendizagem baseada em projetos promoveu uma aprendizagem significativa e crítica, articulando teoria e prática profissional (Della Barba et al., 2012).

Em contextos internacionais, a aprendizagem baseada em projetos mostra-se mais consolidada e institucionalmente apoiada. Na Tel Aviv University, o método é aplicado ao longo de todo o curso, com tutores experientes e formação contínua, o que garante consistência no processo de ensino-aprendizagem. Os resultados evidenciaram correlação positiva entre o desempenho na aprendizagem baseada em projetos e na prática clínica, sugerindo que a metodologia contribui para preparar os estudantes para o campo profissional (Avrech Bar et al., 2017). Na Lund University, na Suécia, a aprendizagem baseada em projetos ampliou a motivação, a colaboração e o raciocínio clínico, reforçando o engajamento e o desenvolvimento de competências profissionais (Lexén et al., 2017). Já no Reino Unido, um programa integralmente baseado em aprendizagem baseada em projetos destacou-se por fortalecer a identidade profissional centrada na prática e no conhecimento aplicado, ainda que com menor ênfase em conteúdos teóricos especializados (Whitcombe, 2013). Em comparação com o cenário brasileiro, essas experiências refletem maior integração curricular e suporte pedagógico.

Destacamos que as intervenções propostas em tecnologia assistiva no presente estudo, como melhorias na acessibilidade urbana e capacitação em comunicação acessível, estão alinhadas à perspectiva da Terapia Ocupacional, permitindo o desenvolvimento de soluções a partir das demandas e necessidades individuais, por meio de um processo mais participativo das pessoas com deficiência. Dessa forma, favoreceu a interação entre alunos, professores e pessoas com deficiência, considerando demandas e necessidades reais para a construção de soluções pautadas nas especificidades funcionais, no contexto social e nas preferências de cada indivíduo.

Limitações

Este estudo apresenta limitações metodológicas e contextuais que devem ser consideradas. A amostra reduzida, composta por dois participantes, restringiu a diversidade das experiências analisadas e a amplitude das interpretações possíveis. A ausência de encontros presenciais impediu a observação direta das barreiras enfrentadas, limitando a compreensão das situações vivenciadas.

As entrevistas não foram gravadas, e as informações foram obtidas apenas por meio de relatos narrativos, o que pode ter afetado a fidelidade dos dados. Além disso, o método narrativo, por não seguir um roteiro estruturado, impossibilitou a coleta sistemática de dados sociodemográficos, como etnia, gênero, ocupação e renda, restringindo a caracterização dos participantes e a análise de marcadores sociais.

A carga horária reduzida e o tempo limitado da unidade curricular restringiram a complexidade das soluções propostas. Também não houve avaliação formal sobre a percepção dos estudantes e das pessoas com deficiência em relação à aprendizagem baseada em projetos, o que teria permitido maior robustez na análise do método.

No que se refere ao uso da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) como ferramenta para síntese interpretativa, reconhecem-se limitações relacionadas à clareza de seus constructos conceituais. Observa-se que atividade e participação estão reunidas em um mesmo domínio, o que pode gerar ambiguidades analíticas (Sampaio & Luz, 2009). Embora a participação apresente uma definição explícita, este apresentar é vago e não contempla de forma suficientemente detalhada as dimensões que a refletem, como frequência e presença, entendidas como indicadores do comparecimento do indivíduo em situações de vida (Imms et al., 2016; Sampaio & Luz, 2009). Além disso, a atividade não possui uma definição própria no modelo, o que pode dificultar a distinção conceitual entre os dois constructos e comprometer a consistência das análises sobre o sujeito e o que permeia seu cotidiano (Sampaio & Luz, 2009).

Ademais, embora a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) adote uma abordagem que transcende a centralidade da doença ao incorporar fatores internos e externos ao indivíduo, a disposição da condição de saúde no topo de seu esquema visual tem sido alvo de críticas. Essa organização pode transmitir, de forma equivocada, a predominância do modelo médico em detrimento da perspectiva biopsicossocial. Nesse sentido, diferentes propostas têm sugerido a revisão dessa representação gráfica, com maior ênfase na funcionalidade e na participação, posicionando a condição de saúde como elemento de base do modelo (Heerkens, et al. 2018).

No que concerne à aplicação prática, a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) também apresenta desafios relevantes para seu uso em contextos de pesquisa e reabilitação. A complexidade de seus domínios e categorias, aliada às dificuldades de operacionalização dos fatores contextuais, pode limitar sua aplicação sistemática. Além disso, os fatores contextuais ainda carecem de maior clareza quanto às suas influências sobre atividades e participação, sendo pouco explorados tanto na produção científica quanto na prática clínica em reabilitação (Heerkens, et al. 2018).

Portanto, para aprofundar a compreensão das barreiras à participação social e aprimorar a formação em acessibilidade, recomenda-se ampliar a amostra, diversificar os perfis dos participantes, realizar coletas presenciais e utilizar registros estruturados, como gravações ou anotações detalhadas. Também é importante avaliar com instrumentos padronizados a experiência dos envolvidos e o impacto das intervenções em tecnologia assistiva.

Embora a unidade curricular eletiva na qual o estudo foi desenvolvido não tenha sido ofertada nos anos subsequentes, por não se tratar de uma disciplina obrigatória, o método da aprendizagem baseada em projetos continuou sendo aplicado pela mesma professora e autora deste estudo em outra disciplina com ênfase em tecnologia assistiva, ministrada nos anos posteriores até 2025. Atualmente, os estudantes desenvolvem soluções assistivas baseadas nas necessidades reais dos usuários, fortalecendo a relação entre teoria e prática. Esse formato de ensino está sendo documentado e divulgado para consolidar sua aplicação na formação em Terapia Ocupacional.

Por fim, é fundamental considerar esquemas alternativos da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) para a análise e elaboração de estratégias voltadas à facilitação do cotidiano de pessoas com deficiência, uma vez que tais abordagens deslocam o foco da condição de saúde para a funcionalidade, a participação e a interação entre o sujeito e seus contextos de vida (Heerkens, et al. 2018). Ademais, a adoção de definições de atividade e participação que favoreçam a compreensão pelo terapeuta ocupacional pode contribuir para uma análise mais qualificada das barreiras e dos facilitadores que influenciam a participação de pessoas com deficiência (Imms et al., 2016; Menezes et al., 2024; Sampaio & Luz, 2009).

Conclusão

Este estudo teve como objetivo principal descrever as barreiras à participação social de pessoas com deficiência visual e auditiva, por meio da aprendizagem, baseada em projetos, aplicada em uma unidade curricular eletiva. Como objetivo secundário, buscou-se propor intervenções em tecnologia assistiva, na perspectiva da Terapia Ocupacional, com base nos relatos dos participantes coletados pelos estudantes.

Foram identificadas barreiras físicas (calçadas danificadas, ausência de semáforos sonoros, falta de piso tátil e rampas) e atitudinais (baixa compreensão de Libras por policiais). A partir disso, foram propostas intervenções voltadas à acessibilidade urbana e à capacitação em Libras.

A abordagem adotada permitiu identificar barreiras e formular estratégias para a promoção da participação social. As narrativas analisadas evidenciaram a relevância de intervenções em tecnologia assistiva centradas na pessoa.

A aprendizagem baseada em projetos mostrou-se uma estratégia potente para o ensino em Terapia Ocupacional, ao favorecer a escuta ativa, o pensamento crítico e o engajamento dos estudantes na identificação de demandas reais e na proposição de soluções.

Estudos futuros devem ampliar a amostra, utilizar métodos mais robustos e avaliar o impacto das intervenções. O aprimoramento do módulo de tecnologia assistiva, integrando a aprendizagem baseada em projetos à prática centrada no usuário, mostra-se promissor para a formação em Terapia Ocupacional voltada à inclusão de pessoas com deficiência.

Contribuição dos autores: a primeira autora concebeu e implementou a intervenção, coletou e analisou os dados, e participou da redação e revisão do manuscrito. O segundo autor contribuiu com a metodologia, análise dos dados, redação e revisão crítica. A terceira e quarta autora supervisionaram o estudo, apoiaram a redação e revisão do manuscrito e participaram da análise crítica dos resultados. Todos os autores aprovaram a versão final do artigo.

Financiamento: não houve apoio financeiro.

Vidal, S. L., Curi, H. T. e Ferretti, E. C.

Figura 1. Delineamento do estudo

Fonte: elaboração própria.

Vidal, S. L., Curi, H. T. e Ferretti, E. C.

Vidal, S. L., Curi, H. T. e Ferretti, E. C.

Vidal, S. L., Curi, H. T. e Ferretti, E. C.

Figura 2. Categorização dos resultados do caso 1, no esquema da CIF

Fonte: elaboração própria.

Vidal, S. L., Curi, H. T. e Ferretti, E. C.

Figura 3. Categorização dos resultados do caso 2 no esquema da CIF

Fonte: elaboração própria.

Vidal, S. L., Curi, H. T. e Ferretti, E. C.

Vidal, S. L., Curi, H. T. e Ferretti, E. C.

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Referencias

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